Sábado, Julho 12, 2008

Eu Não Sou Um Bom Lugar ~ Titãs

Estive tanto tempo morto, deuses! Agora respiro o ar puro da vida novamente, e quanta fome tive, e quão asfixiado estive! Pelo menos por um momento ou dois. Ainda não é hora de deixar o deserto. A ausência de posts no blog recentemente se deve simplesmente a este motivo: o deserto não é de ninguém. E eu me perdi lá dentro, porque como Danilo disse a um tempão, é se perdendo que a gente se encontra. Eu me perdi e deixei pra trás meu nome, minhas roupas, minhas vontades, meu desejo... Até que só sobrasse uma única coisinha do velho mundo comigo, uma semente de organismo: uma pequena inscrição na minha pele. Em meus pulsos estava escrito I CAN para que eu lembrassse disso quando chegasse no Outro Lado. Agora eu entendo uma coisa, e porque ISSO sempre escapa da gente, e temos de correr atrás DISSO de qualquer forma, seja através da américa de um lado ao outro como os beats ou em desertos metafísicos como eu: o Outro Lado é um devir. E quando você chega lá na verdade só chegou neste lado, o outro sempre está no outro lado, já se fez borboleta ou balão de hélio e escapou. Nada disso foi desavisado: os anúncios ecoaram pelas dunas até meus ouvidos. Um encontro mágico na frente da barraquinha de cachorro quente na terça a noite, e Eris vira pra mim e diz "você não precisa abandonar a Mágica, imbecil". Os temas que deveriam ficar só no virtual começam a escapar, e de repente estou no coreto da praça da liberdade conversando com o sucessor político do Nelson Mandela. Era uma noite propícia pra perceber o que eu já sabia. E aí hoje acordei com Learning to Live na cabeça e tava um sábado de sol maravilhoso, já tinha até esquecido do poder dos sábados com céu azul e sem nuvens. Preciso de algo que me surpreenda da mesma forma que eu me surpreendi da primeira vez que a maconha deu onda em mim, ou na primeira vez em que entrei na Up!, ou que me deixe como estive em porto de galinhas: Quero me apaixonar por alguma coisa ou alguém que destrua minha vida como eu conheço e erga outra. O medo, claro, tá sempre presente, mas a vontade de destruição tá começando a ficar mais forte. É sempre alguma coisa de um mundo que o destrói e abre portas pro próximo; isso parece ser uma regra da vida; o que vai ser desta vez? O que importa é que estou vivo, o que importa é que estou respirando, o que importa é que meu coração está batendo. O que importa é que por um momento o mundo é real. O que importa é que por um momento eu tenho uma fome tão grande que eu posso devorar a lua. Eu posso.

Mr. Six às 15:48

Comments:

Segunda-feira, Abril 21, 2008

All Tomorrow's Parties ~ The Velvet Underground & Nico

Estou capturado pelo olhar brilhante da Nico. Como uma rainha do gelo, ela enrijece a minha alma e me devora; ou me devoro; com a pose digna de uma divindade, ela caminha em minha frente rumo a um desastre. Feita pele e osso pela heroína, os dentes amarronzados, o humor apático e ácido de seus últimos dias. Seu filho injetou pela primeira vez com dezesseis anos, ensinado por ela mesma, e dois anos depois estavam ambos mortos. Uma junkie decrépita que desperdiçou sua vida e seu brilho ou uma figura genial e radiante que não podia atravessar essa vida sem fazer-se consumir pela droga? As duas interpretações estão corretas, algo me diz. A primeira desencanta tudo aquilo que vejo de belo no mundo - o espetáculo trágico dos grandes artistas da geração dos sessenta. Essa voz incessante na minha cabeça, que me arrasta e me mostra que toda alternativa radical, todo esforço xamânico pra engolir o mundo que herdamos e parir nele uma festa explodindo em fogos de artifício não passa de sujeira, doença e uma mórbida compulsão auto-destrutiva. Simplesmente grandes almas que se envenenaram até morrer, simplesmente um gigante desperdício. Desperdício.

"Não há nenhuma causa nesse mundo pela qual valha a pena dar a própria vida", me disse uma amiga, muito sensata. Certa ou errada? A minha vida é algo muito pequeno, muito parcial, um ponto de tênue equilíbrio em titânicos jogos de força - a História, o Estado, a Gravidade, a Entropia - e ainda assim, é tudo que tenho. Se a coloco como valor último, todos os valores subjugados terão de ser menos ainda - mais tênues, mais faltosos, mais transitórios. E aí está o charme das estrelas suicidas - não daquelas que simplesmente depositam um tiro na cabeça, o assassinato de si pela própria individualidade - mas das que são destruídas por ousar viver vidas de deuses, dos que se destroem porque eram grandes demais pra viver em si. E aí está o que fascina neles: eles transbordam de luz criativa, e essa luz surge do choque de infinitas espadas por dentro, faíscas e faíscas de conflitos incessantes que parem todos os deuses e monstros do estrelato. Eles não são profundos: é o medíocre romântico do cotidiano que é profudo, que contém dentro de si todos seus pensamentos e sentimentos e ainda uma enorme quantidade de espaço vazio. Pelo contrário, eles são superficiais - no sentido de que o clangor de espadas está ali, objetivado, na pele e osso, na música visceral. Estão constantemente cuspindo porque não há espaço dentro pra tanta coisa. Arte e vômito.

A Nico faz um som desértico. Não é a toa que caí nela nesse exato momento. Estou atravessando um deserto, ou uma "cloud", como costumava falar. E aquele estado onde não sei quem sou nem o que quero, nem se estou bem ou mal. Eles costumam vir entre fases maiores e consolidadas, os ups e os downs, construções e destruições. Eles costumam durar mais. Eu achei que se eu tomasse controle e matasse o rei por mim mesmo - terminando assim uma era, um Iago, eu poderia acelerar o fluxo das coisas e passar direto para a próxima. Até o Tarot me deu a entender isso, o Aeon e tudo mais. Mas não é assim: nas fronteiras de um mundo ou um território nunca vem outro, mas vem desertos, infindáveis, secos, áridos de força vital e criativa. Eu fico pensando se devo me atirar ao vazio, deixar de batalhar contra, simplesmente caminhar pacificamente até que algo volte a brotar do chão. (Deleuze falando no seu filme: "o problema não é quando você atravessa um deserto, é quando você nasce em um (...) pobres daqueles que nasceram num deserto"). Mas tenho de carregar alguma coisa, escondida ali no bolso secreto do paletó, parecer que estou nu e congelado, mas guardar uma semente de vida futura conservada no último resquício de calor do meu corpo. Isso tudo parece muito distante e abstrato, mas não pode ser mais literal. Eu não tou sabendo INTERAGIR direito com pessoas desconhecidas. Não sei como me apresentar, não tou conseguindo conversar e ser interessante. Tento puxar lá do fundo a radiância e o amor pela vida, mas não sai nada; tento ser espontâneo mas todo ato parece terrívelmente fingido. Eh uma fase de observar e observar e tomar notas, que deveriam me guiar, mas só ficam lá armazenadas pra um dia futuro. Nietzsche criou um manual prático pros tempos de doença: não é hora de criar nada nem de ser ativo em nada. A hora é de conservar, dobrar-me sobre mim mesmo, construindo mais e mais bolsões de vazio que algum dia serão o espaço no qual alguma coisa nova vai brotar.

Mr. Six às 22:04

Comments:

Terça-feira, Março 11, 2008

We Can Work it Out ~ The Beatles

Tinha alguma coisa especial funcionando há um tempo atrás. Com o tempo essa coisa foi, como diria meu grande amigo keoma, "desincrinozando" - e tudo culminou numa distância que não posso cruzar mas que continua ferindo. Eu não gosto de nada que FALTA, e por isso o título do post - por isso e porque a coisa especial em questão é exatamente esta. Eu tou falando, em alguma medida, da amizade com o danilo. A coisa especial é, como chama Nietzsche, produzir a própria destruição.
É claro que eu não tou falando de suicídio. Estou falando de vasculhar o próprio ser & vida por processos de sedimentação e encontrar aquele jeito escorregadio de se desterritorializar, de ir além. Há sempre um novo front inesperado surgindo e a tarefa é impossível - mas a gente era idiota o suficiente pra continuar fazendo. Todas as vezes que o danilo virou pra mim e afirmou que ainda estava no jogo o que ele anexava era - isso tudo é uma desterritorialização em curso, estou jogando contra mim mesmo. Estou construindo cenários e papéis e interpretações & acreditando nelas, porque é entrando na roda-da-fortuna do mundo e do tal do ego que a gente puxa o fio do labirinto. Eu sempre acreditei nele, isso sem dúvida. Implícito nisso tudo estava a idéia de que eu mantinha o jogo em curso, que a coisa tava indo em frente. Mas isso é a primeira mentira: por um ano inteiro eu estive parado olhando pra ele curtindo o namoro com a Nah, esperando que ele desse algum passo, esperando que ele fizesse o que eu tanto amo: tomar a dianteira. E é isso que está por trás da revelação da noite fatídica de fevereiro, a noite em que sentei no quarto com os dois nus semi-cobertos por um lençol branco, em meio a todo aquele cheiro de sexo & aquele bosque verde que eu não enxergava. Um, eu estive esperando por um ano pra voltar a viver. Dois, outro verdadeiro sentido de produzir a própria destruição era estar nu nos campos do senhor. Ou seja, guiar os fluxos pelo caminho-tortuoso até o corpo-sem-orgãos. Essa dupla revelação me deixou em choque - se eu continuasse meu caminho sem ele talvez não pudessemos nunca mais nos comunicar como foi. Eu estaria vivendo em extratos diferentes dos dele. Seria isso então o motivo da desincrinozação? Em algum momento eu cansei de esperar e fui em frente? Mas é verdade que ele também não parou. E ainda assim a distância foi aumentando.

A Nah. Ela entrou naquela conversa da noite fatídica e eu a joguei pra fora porque, pensava, não era o momento. Eu teria de considerar que havia um terceiro ali, que não era só eu e ele, que eu poderia ser rejeitado por ela e isso doeria demais ao meu ego. Será que ele percebeu isso? Sempre achei tão óbvio que não precisava mencionar. Os meninos não entenderam; não é rancor, isso que bate em mim. Tá, em alguns casos pode ser, mas não é rancor no caso ela. É que simplesmente não posso lidar com essa rejeição. Assim como eu não podia antes. Mas ela veio, não adiantou fechar os olhos; ficar parado numa rodovia de olhos fechados não impede o caminhão de te atropelar. O ponto de absoluta sinceridade nisso tudo é o que eu menos consigo falar: eu queria de que ela gostasse de mim. Eu posso me moldar pra tal objetivo, mas é isso que deve ser feito? Se ela quisesse assim, se ela se comprometesse a fazer o mesmo, se isso fosse importante pra ela, então seria meu curso de ação. Mas retornamos ao título do post, retornamos a aquela-coisa-especial: trabalhar a si mesmo e a vida ao redor. Trabalhar os outros - porque não? Claro que eles não vão querer, quem quer ser trabalhado, clinicalizado? Ainda mais quando não consigo nem explicar o objetivo. Eu titubeei quando o danilo perguntou o que era a Vida Como Vale a Pena Ser Vivida. É claro, esse termo não significa nada, assim como o Outro Lado não significa (e daí a dificuldade de DEFINI-LOS em termos de significância): eles só funcionam. São peças operantes & asignificantes que eu coloco num slot de imponderabilidade, do indizível, que fazem a auto-destruição e renovação constante funcionarem. (a vontade individual e consciente deve ser levada em conta, quando se trata de reformar o inconsciente - incapaz de vontade - só capaz de produção - e sempre coletivo? isso foi um grande problema que eu enfrentei com a kátia. isso foi também um grande problema que surgiu em uma sessão de ácido, o todo e o resto. isso não tem solução simples. mas acho que minha questão e a dela de alguma forma atravessa este post e interage com ele. quando pensei um tópico com esse título era sobre algo que rolou em eu-ela. continua sendo, também). O que eu quero dizer é que não posso sequer cobrar, sequer cogitar cobrar que a Nah e eu trabalhemos a relação, e desta forma & necessariamente, a nós mesmos. Não posso cobrar mas é o que eu gostaria que acontecesse, como quando disse isso a kátia. Era mais fácil quando eu e o danilo estavamos juntos nessa, e de certa forma era apenas nós dois, e havia uma concordância de base sobre como proceder na vida. (a Nah uma vez comentou, semi-irritada: vocês discutem tudo! riso gostoso até hoje porque é-era verdade).

De alguma forma a Nah é importante. Ela entrou na nossa conversa recente sobre os rumos que nossa amizade tomaria. Ela ficou engasgada na minha garganta e não deixou a coisa continuar - e sei que, de alguma forma, na dele também. Eu dei de ombros entristecido: disse que não voltava atrás de nada do que eu disse (e não voltava, mesmo): mas o que deveria ser dito é que não POSSO fazer nada a respeito. (Não faço idéia do que ele pode ou não fazer.) O que salta aos olhos é que ele tecnicamente está livre-leve-solto pra "voltar ao jogo", mais, está FAZENDO isto, e eu também aqui no meu canto, e não nos comunicamos como poderia ser. E de alguma forma eu ainda funciono simbolicamente na vida dele, e ele de alguma forma ainda funciona simbolicamente na minha, muito mais que concretamente. De longe. Eu optei por não ir ao show do dream theater que teve aqui & não foi pelo dinheiro. Foi porque o tarot me recomendou & dessa recomendação veio uma reflexão & eu percebi que não gostava de dream theater o suficiente, e iria só em busca de uma música, e essa música só vale o que vale porque ela sempre funcionou pra mim como expressão do pacto tácito de desterritorialização - com o danilo. Foi um exercício de aceitação de que tem coisas que jamais vamos compartilhar. O que sempre foi verdade: temos jeitos quase simetricamente opostos de viver a vida: eu por uma afirmação direta de amor a tudo que a vida tem de bom, na música com os pillows e com o rock psicodélico, ele por uma aceitação profunda de tudo que a vida tem de doloroso, com seus the gatherings, com seus lodgers. As duas coisas são imprescindíveis pra se produzir um corpo-sem-orgãos. Essa diferença sempre funcionou bem. É em grande parte o que fez com que tudo desse tão certo. Como duas pessoas podem de alguma forma funcionar se complementando e só adicionar uma à outra. Como as coisas podem - de certa forma - dar errado. ?

É impossível cair de uma montanha, damnit.

Mr. Six às 02:56

Comments:

Domingo, Fevereiro 17, 2008

Make It Mine ~ The Shamen

Como eu pude esquecer do que aconteceu no dia da festa? - se perguntou incessantemente um iago-de-sonho. Como eu pude perder um show do The Pillows aqui em Belo Horizonte? - se perguntou outro, dessa vez lembrando "ah é,eu tive RPG, é claro que eu abriria mão do show deles aqui pra jogar RPG, já que eu combinei, e combinado é regra, né?" E checando a playlist do show deles eram só músicas estranhas mesmo, nenhuma que me dissesse respeito, mas eu gostaria de ter visto de qualquer jeito. Conforme eu ia saindo uma borboleta bastante chata começou a voar a meu redor, e era uma bem feia! Quer dizer, as cores certas, mas estava moribunda a pobrezinha, toda machucada e estronchada & eu tinha nojo de tocar nela - se não fosse por isso, eu a mataria. A kátia ficou me puxando pra irmos mas a borboleta pentelhava, enquanto as meninas nas quais eu estava jogando idéia iam indo sem me esperar. Acordei e até agora não descobri o que é a pequena borboleta incômoda, tirando que isso tudo me lembrou Invisíveis e a Lord Fanny e sua deusa-borboleta-maia. Mas tem algo no meu caminho, e fui eu que plantei. Como quando fiquei brincando de jogar garrafas de vidro no chão, totalmente inconsequente, e de repente os cacos de vidro estavam dentro de meu sapato. Não entendi como diabos eles tinham ido parar ali, não tinha espaço pra entrarem na meia, mas era um fato. Temi estourar meu pé todo quando andasse mas eu não me machucava. Fiquei subitamente imune a cacos de vidro mas acordei meio incomodado mesmo assim. Acordar foi a solução pra quando esqueci a festa: eu descobri isso ainda sonhando. "É claro", pensei depois, "seu iago-de-sonho estúpido. Você não lembrava da festa porque ELA NÃO ACONTECEU AINDA!!", & eram tipo seis da tarde quando minha festa começaria às dez da noite. Tenho sonhado várias vezes por noite e acordado todas elas, ou tenho lembrado dos sonhos PORQUE tenho acordado, como diria o Danilo. Acho que a dificuldade em virar uma noite inteira é porque mudei meu horário de sono muito bruscamente recentemente e ainda não acostumei, nada muito profundo. Essa noite dormi quinze horas e depois do sonho da borboleta teve outro, muito mais longo e estranho. Começou com eu descendo pro centro da cidade e alguma coisa acontecendo, como uma visita a um médico. Daí tive de voltar pra casa e estava semi-drogado com alguma coisa que embaralhava meus passos e minha cabeça, coisas de doutor. E no caminho percebi uma movimentação à minha frente e saquei que eu seria assaltado. Peguei um desvio na rua e pedi ajuda a um homem, mas enquanto movia meus pauzinhos pra evitar esse destino o assaltante deu a volta e se aproximou e bateu com uma garraga no homem. Tentei chutar o saco do assaltante mas ele era enorme e eu estava zonzo. Não podia fugir. Eu estava de saia escocesa e então o assaltante comentou que só ia roubar meu dinheiro e me forçar a chupá-lo, porque pra ele eu era um viadinho ou qualquer coisa bem pejorativa. Não queria aquele destino e resisti com toda minha força, mais pela repulsa do que pelos trinta reais da carteira. Tanto fiz que ele optou não por me violentar ali, mas por me sequestrar. Apaguei e acordei depois em cativeiro. Haviam muitas pessoas e era a parte de trás de um restaurante e elas pareciam ser todas boas pessoas. Cogitei minhas chances de escapar mas não eram muitas. Talvez, se eu apelasse pro coração dessas pessoas? Mas elas pareciam nem ligar. Uma hora dei um jeito e saí correndo. Deixei a bolsa pra trás e saí descalço - acabei perdendo não só o dinheiro mas também meus all-stars novos - o que me levou a pensar inclusive que teria sido melhor o roubo e a violação momentâneos lá atrás do que um rapto completo que me custo os sapatos e o dinheiro! Mas agora eu estava correndo, e fugindo, e era um estranho lugar. De nada adiantou: acabei novamente capturado, e me indagando agora o que eu faria. Meu destino provavelmente seria pior agora que eu não tinha cooperado. Eu acordei. Tá: esse sonho, com certeza, me desafia a interpretação: não tem aquele senso óbvio dos outros de significância através do absurdo.

E aí hoje eu estava lendo A Voz do Fogo, do Alan Moore. Livrão, por onde a gente escorrega por uma louca e longa sequência durante seis mil anos de existência humana, e o fogo canta suas palavras de luz negra. Enquanto absorto, minha irmã menor me chama à tv e me mostra: um mestre-titereiro manipula duas marionetes que fazem mágica. Uma delas, vulto sombrio e mascarado similar ao Mister M, move suas mãos em frente a um quadro negro com uma pomba desenhada, apagando-a. Em seguida ela brota de suas mãos, viva e se movendo, e sai a voar.

Mr. Six às 18:30

Comments:

Domingo, Janeiro 06, 2008

Magical Mystery Tour

Eu sempre costumei fazer uma revisão de ano novo aqui no blog.

Mesmo fingindo que não é de ano novo, porque isso é meio cliché. Não importa. Este ano vim me rendendo mais do que nunca ao mero lugar comum, e bastante satisfeito com isso. Chama-se adolescência passando. Obviamente, este é o processo que me tem feito parar & sentar & observar o cosmos. Uma daquelas epocas onde nada do que penso é confiável porque tudo está sujeito a revisão. Uma daquelas épocas onde eu produzo, produzo, produzo furiosamente, escrevo até as palavras secarem na língua. Não, pensando bem, eu nunca passei por algo assim antes. Mas há um óbvio senso de conclusão: ok, isso é o que eu tirei da fase anterior. Não dá pra continuar nos mesmos termos e ir além. Eu descobri que sou apaixonado com neurociências e com a cultura underground do último século (na sequência: surrealistas - beat - hippie). Eu já saquei que tudo é consciência, que o universo é muito mais estranho do que parece quanto mais perto olhamos, que os pensamentos alienígenas estão aí e eles são a gente e rumamos para um enorme colapso dimensional. Ah, e a guerra do bem e do mal. Não esquecer de mencionar a guerra do bem e do mal.¹ Eu defini minha personalidade toda através de um conceito bem difícil de explicar que é estar "nu nos campos do senhor", ou seja, com olhos de criança que se recusam a aceitar qualquer coisa que vem de fábrica. Nesse esforço interminável de reavaliar e tecer novamente cada fibrazinha do meu ser que a genética e a minha cultura me forneceram. Eu me decidi anarquista, como a única opção para batalhar O Déspota. Eu me decidi Zen, Sufi e Bacante, engolindo o sol, bebendo até pegar fogo. Eu me decidi uma cambada de coisas e só o tempo e sua foice vão dizer o que cairá pelo caminho. Tou carregando uma mala CHEIA de broches. Tou procurando a saída com o elevador escrito "sobe".

Tou na praia olhando o mar. É Rio de Janeiro, Porto de Galinhas, São Francisco do Caralho a quatro, é sempre este momento. O mar quebra as beiradas dos meus olhos e continua a abrir, abrir asas de costa, dum jeito que não cabe na visão. Água e ar brincam de se confundir no horizonte; dionísio sobe, ressurge, em um fulgor vermelho que inspira sexo & sangue. Meu coração tá batendo do jeito que deveria. Teci casulos de palavras e, enquanto as gralhas gralhavam "só teoria", eu tava tecendo um novo adão. Sob o brilho da estrela da mudança. Olhar pro passado é difícil porque os anos se misturam e as memórias acasalam umas com as outras, mas é pra isso que mantenho diários, não? Um dia eu fui um aprendiz de cafajeste. Esse foi o meu primeiro frankstein do ano, pegando pedaços de todo mundo que deixava cair. Claro que eu já intuía que o fim estava próximo (citando a mim mesmo, "um mago sempre sabe"), tanto que naquela noite em Chokmah eu tentei expurgar o maior demônio de todos. O nome dele é Bizarre Love Triangle e aquela foi uma noite fracassada. Ah, mas isso tudo de cafajeste e Chokmah foi nas profundezas de uns Strange Days, dias de coca cola e cigarro e discussões de rpg sempre-repetidas e sempre-tediosas, preso numa casa onde o tempo não passava. Se é daí que eu saí no meu ano, deuses, não tinha como não melhorar. Mas tudo bem. Depois dos Strange Days veio A Case of You, e todas aquelas tardes e cigarros queimados ajoelhado na área de serviço da casa das meninas discutindo com a Nádia. Naquela época era muito importante pra mim o que ela achava de tudo. Eu buscava no olhar dela alguma coisa que me dissesse respeito, alguma coisa que fosse direta e pessoal, o que quer que fosse. Ela buscava em mim alguma pista sobre o Danilo, sobre o porque dele estar sempre afundando. Aqueles foram dias difíceis. Aí eu conheci a k'². Não é a toa que eu troque tanto o nome da k' com o da Nah & cometa tantos atos falhos. Elas se parecem, em algum sentido estranho que só as sequências da vida podem explicar. Não que uma seja uma metáfora, imitação ou substituição da outra, mas que as duas se encadeiam no tempo e no espaço em relação a minha vida de uma forma que faz sentido por si só num nível supra-pessoal. (Isso se eu ignorar que há uma sequência mais ampla de virginianas se sucedendo, lá deeeesde a Patrícia).

Então, a coisa da k' me deu aquele tranco que eu precisava pra sair, tirar minha cabeça de Chokmah, de Selene e Baco, da eterna posição de terceiro na qual eu me mantinha por medo, e actually VIVER alguma coisa com alguém. Viver MEUS próprios momentos kodak. É, eu não imaginava que valia tanto a pena. Eu trabalhei os sete chakras de uma vez só (os vinte e três sítios e as quatorze fazendinhas também.) Foi nesse tempo, nesses meses depois, pelos quais são incrívelmente grato à k', que eu descobri que havia superado toda uma fase de anos de vida miserável. E foi nesse clima de descoberta que eu comecei a procurar a porta de saída. Eu estive quase lá. Por uma semana eu tinha uma caosfera desenhada na mão e eu era um deus. Não havia fantasma do passado que pudesse comigo, não havia forma de matéria do presente que estivesse à minha altura. Então a onda começou a passar devagar. Comecei a cansar. Desgrenhei meu cabelo e não redesenhei a caosfera. Decidi que ainda talvez o caminho fosse ficar ainda mais selvagem, sujo e perigoso. Por um tempo me preocupei tanto com meu futuro profissional que não tive tempo pra tocar nada de evolução pessoal. Só as leituras, Deleuze acumulando na minha cabeça até fazer sentido. E aí o fim de ano emergiu e eu não consegui uma conclusão. Mas fiz uma viagem pra praia.

Tou na praia olhando o mar, e são fogos de artifício. Estou na chapel perilous, nas terras puras, nos campos do senhor. Eu disse que passaria o ano novo nu dessa vez. Nada daqui me diz respeito, nada daqui é pessoal. Passo os olhos mas não procuro mais por ser notado (ou tento não procurar). Eu disse um bocado dessa justiça divina, inumana, cega e cósmica que eu estava buscando. O tarot me sussurra palavras de luz negra. Eu sorrio. Dionísio emerge em chamas do mar como uma criança travessa.

¹que podemos assumir só como uma ficção útil, como dissequei no último post. não, não me sinto culpado por assumir ficções úteis.
²favor difereciar k' de k., que fez-se só um fantasma do passado

Mr. Six às 18:30

Comments:

Sábado, Novembro 03, 2007

A Insustentável Leveza do Ser

Alguém não entendeu alguma coisa no meio disso tudo. E eu acho que é o Milan Kundera, com o que ele pensa do eterno retorno do Nietzsche e da vida em geral. Quer dizer, o livro dele é maravilhosamente tocante - quanto à crítica ao governo comunista, quanto a 1968, e quanto à vida emocional humana deste século. Eu me identifiquei com os quatro personagens do livro, como acho que o próprio Kundera faz; eu parei com ele e pensei, "o que eles vão fazer agora?", assim vendo de fora, assim vendo as sequências de repetição de suas vidas desenrolarem ao longo dos anos. (e ao mesmo tempo tão perto, sofrendo seus pequenos infernos, deleitando-se com suas superações, sendo um e ao mesmo tempo tantos)... O Deleuze diz "a diferença se explica no universo, e está complicada nele", quero dizer, a DIFERENÇA em maiusculo. A origem de tudo, o paradoxo matriz, o édipo original: x =/= x. Algo que se diferencia de si mesmo infinitamente, sem nunca concluí-lo mas sem nunca acabar.
O Kundera pegou esse ponto bem! Por trás de todos os personagens está uma diferença, seja leveza e peso, seja corpo e alma; existe algo de irresolvível ali, e eles nascem e morrem assim, sem se resolver, sem transcender nada. O livro é como as vidas são, profundamente inconcluso, mesmo em suas conclusões. Eu senti que faltou um capítulo no final, pra recapitular, pra dizer: não, não foi isso que o Nietzsche quis dizer! O eterno retorno não é essa repetição tão entediante quanto pesada! O eterno retorno é o espetáculo de uma diferença que sempre se diferencia de si mesma! É a expressão máxima de amor à vida, de afirmação da existência! E entretanto não acontece, e o Kundera fica ali sem entender nada... Eu entendi... Não sei mais do mundo do que ele, ou de qualquer um de seus personagens; pelo contrário, aprendi mais com eles do que em muito tempo de minha vida! Mas eu sei alguma coisa do Ser, poxa vida. Afinal, não desperdicei todo meu tempo de ócio criativo desde que tenho 14 anos! (eu sou o rei de não fazer nada, e sofrer por não estar fazendo nada, mas poxa vida, eu tenho de me convencer de que não há nada a ser feito, a não ser que eu queira).
Eu tenho vontade de gritar: "Come together!" quando leio sobre 68. Acho que já contei pra todo mundo sobre como eu gosto dessa época, e como sinto saudades dela (mesmo sem tê-la vivido - como se a vivência individual fosse de forma alguma relevante em termos de memória! como se eu não estivesse, de certa forma, lá, cada vez que leio Deleuze ou ouço Beatles). Foi em 68 onde a última batalha foi travada, onde achamos que podiamos ganhar, mas o inimigo venceu. Estou sendo conspiratório. A teoria da conspiração é típica de uma direita individualista e papapa, mas eu concordo com um teórico anarquista aleatório de um forum da internet quando ele disse: os anarquistas podem incorporar a conspiração como uma ficção útil, a ficção da conspiração dos estados contra a vida como vale a pena ser vivida. Ou édipo é a conspiração, ou a má-consciência é, ou os cara-cinza são, não importa: foi em 68 que quase demos uma guinada, mas era cedo demais; ainda não estavamos prontos. E se estamos prontos hoje, ou estaremos num futuro plausível, é por causa de 68. Mas exatamente por termos perdido os rumos após 68, após a tentativa-antes-da-hora, que hoje é impossível fazê-lo. Algo se quebrou e não sei se é pra sempre, mas está sendo por um longo tempo. Era necessário falhar e nos condenar à falha pra ser possível o sucesso. Mas espera, estou sendo edipiano de novo, nunca falhamos. "É impossível cair de uma montanha", diz Kerouac nos Vagabundos Iluminados, e num sentido bem metafórico, é assim que as coisas funcionam fora do édipo / estado / má-consciência / cara-cinza. No Outro-Lado.
Eu quero cantar Come-Together porque acho que mais ainda, perdemos a vontade de tentar. Não parece valer a pena ser de forma alguma inovador, ou revolucionário, ou encantado: as gerações antes de nós tentaram e o peso do fracasso está sobre suas costas; eles olham para nós e se veem em nós, mas sorriem um sorriso triste de 'já passei por isso e sei no que dá'. O eterno retorno do mesmo vencendo sobre o eterno retorno do diferente. Não, ó gerações anteriores, vocês NÃO SABEM NO QUE DÁ! Tudo só acontece uma vez, então, é diferente agora, é diferente sempre. Eu deveria ter dito isso a meu professor quando ele me olhou com aquele olhar de "eu já fui você"... "Eu construí essa imagem de seriedade pra ser ouvido", ele disse. Ele está certo porque entrou ali como um conspirador, como um agente secreto da Grande Revolução (anti-conspiratória, ainda é a mesma ficção), mas ele está errado por acreditar ser o único caminho. É engraçado como um movimento social como as Ações Afirmativas e o movimento negro, ou mesmo um PSTU, são aceitáveis, desejáveis, mas qualquer outra coisa, qualquer força inovadora FORA das instituições, soa como uma infantilidade adolescente pra todos. "Ora, eu preciso enfrentar o mercado de trabalho [esse novo grande antagonista dos destinos individuais, esse monstro que drena nosso olhar e nos observa como o abismo de Nietzsche, ao que parece TORNANDO-nos mercado; e como o tememos!], eu preciso garantir minha vida, eu preciso ter dinheiro e status pra poder viver meu lazer e minha excentricidade", me dizem os aparentes traídores da Grande Revolução. Traidores porque garantir a vida, ter segurança, é uma invenção burguesa de cinco-seis séculos de idade (legítima, sim) e de forma alguma é extensiva em relação às possibilidades do ser. Sim, pode-se viver com segurança, mas não é preciso. Há vida na grande vastidão desterritorializada lá fora, no Outro Lado selvagem, violento e explosivo do ser-ativo. Mas a traição é aparente porque podemos ser agentes secretos no inimigo, mas só se tivermos o componente estelar do Outro Lado nos corações; caso contrário, é cedo e rápido ser derrubado pelas forças reativas e tornar-se caracinza.
Eu quero cantar Come-Together pra dizer aos outros que não estamos sozinhos; que nunca caímos do éden; que a vida como vale a pena ser vivida ainda vale a pena no matter what. Porque eu me sinto sozinho, acho que caí do éden, e acho que a vida não vale a pena ser vivida. Sou assim cara-cinza, e tudo parece o mesmo se repetindo, exceto naquele pequeno espaço secreto onde pisca a estrela do caos; lá onde já sou, e sempre fui, übermensch. Os 4 personagens de Kundera são tocantes, mas estavam errados, afinal. Seguindo seus pequenos destinos e sofrendo com eles; talvez a mais rica e forte deles fossem Sabina, enquanto presa a trair-se sempre, era presa a tão somente isso, e flutuava pela vida como uma pena de insustentável leveza; ela era o Homem Que Queria Morrer, o último golpe da Reação, onde o homem volta a Afirmar, produzindo sua destruição. E talvez a mais pobre de todas era Tereza, reagindo à reação, esse Último Homem que só tem olhos pra sua própria fraqueza. Como a odiei por ser assim, e por ser tão parecida comigo. Mas eles passaram, os 4 personagens, e eu passarinho... E isso, este passarinho, é o que retorna como diferença. Não haverão mais Terezas, Sabinas, Tomas e Franz: mas haverão übermensch gloriosos. A ficção conspiratória do estado serve pra nos fazer sentir ainda em conflito com alguma coisa. Não há conflito, já vencemos desde o começo dos tempos (nem vencemos pode ser a palavra, porque a vitória implica poder cair da montanha...) A entropia cairá e arrastará todos os impérios, derrubará todos os monumentos, apagará todos os livros de burocaria; mas as crianças-estrela dançarão com toda sua fugacidade por qualquer lugar impossível de se chegar, só porque elas podem e querem.

Mr. Six às 16:22

Comments:

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

& thus I drown

Precisando de uma ruptura com o velho, já. Sedimentação de devires, as coisas começam a assentar dum jeito que eu não gosto e ja fico com fogonorabo. Quero por aquela faculdade abaixo porque encontrei de novo o imponderável de efetuar um virtual enquanto real e to de novo mijando nas calças. Ir na aula virou uma tensão constante: treine duro! leia mais! preciso de sair de lá ascenso, pras altas posições ocupadas por aqueles tidos-como-geniais nas graduações. Qualquer coisa menos me prova um qualquer. Qualquer coisa menos desafia tudo que acredito de mim. Foi sempre tão fácil e porque é que agora de repente ficou difícil? Acho que é porque agora tenho de colher as consequências por mim mesmo.
O problema é dessa aí entrar numa arena onde eu tou pisando no Kant, em uma pedra escorregadia chamada Deleuze, na linha de tiro de tudo quanto é etnografo, conservador, popperiano, filósofo da linha pós-kantiana ou qualquer ponto dedutível num continuum de opniões. Vulgo ferrado. Eu fico observando os outros que sobem e me pergunto sobre como, que técnicas, que meios. Tudo que meu ego precisa é de que um professor me compre e acredite em mim. Tudo que meu ego precisa é de um professor que me diga o que fazer pra ser grande. Prezado Ganesha, como fui cair nessa? Como saio? Preciso me encontrar de novo aqui no meio e morrodemedo de que meu curso de repente tenha sido inteiro desperdiçado, que ele acabe e eu olhe pro mundo e diga:

...e diga:
NÃO sei o que faço da vida agora!

O caminho tem de ser translucente brilhando na escuridão, com aqueles carinhas usando sabres-de-luz pra indicar onde pouso. Cadê a tocha de dionísio na escuridão dos mistérios? Eles não colocam a chama pra guiar os iniciados? Eu ouvi dizer que é assim. Ter viagens alucinógenas é mais fácil e menos perigoso do que fazer filosofia. Eles deviam proibir a segunda e liberar os alucinógenos. Outro dia um moleque da filosofia se matou. Se matou porque não acreditava no mundo, é essa a fé que precisamos. Não mais uma instância externa ou whatsover. Só isso, só que esse aqui e agora auditivo-visual-tatil seja real. Sensação de ser pequeno e toda palavra que digo ecoar num grande vazio. Sensação de precisar de fazer algo pelo mundo mas nunca conseguir chamar a atenção de nada nele.

Não entendo porque vim parar aqui, mas já que é essa minha saída, eu leio, leio e leio. Com a esperança de que uma hora eu possa levar todas as balas do tiroteio e ainda ficar de pé. Com a esperança de achar uma certeza, e um método, e deles fazer minha própria tocha. Ainda não acredito em nada e isso inclui o mundo.

Mr. Six às 01:32

Comments:

Sexta-feira, Julho 27, 2007

The End

Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake...hes old, and his skin is cold


Eu tenho de confessar que se eu nomeei este post com esta música, não é por nenhum motivo macabro, e sim porque hoje terminei de ler o último livro do Harry Potter. Mas thinking about it há bastante de tudo pra justificar este título.
Fins são complicados. Quando eu escrevia contos, eles não duravam nem duas páginas - eu gostava só daquele momento retumbante onde a história se desvelava, e pra que o resto? Um fim sem um começo e meio é uma refeição fácil - direto à parte boa, e pronto. Sem delongas.
Todo fim após uma longa história é insatisfatório. Você sabe, se apega aos personagens, e depois morrer fica complicado. Mesmo que os personagens sobrevivam, eles estão morrendo em você. Eu acho que não lido bem com isso mas ninguém lida.
O fim do Harry Potter foi, sim, um bom fim. (A Rowling certamente é uma escritora gabaritada de fantasia. Eu gosto da imaginação delirante dela. Eu gosto de como ela faz a transição entre o infantil e o maduro assim, sem doer, sem sangrar - só escorregando pela escada da adolescência). Mas é claro que eu não poderia ficar satisfeito, porque sempre sobram pontas, não necessariamente no roteiro - pontas de esperança, pontas de possibilidades, pontas em tudo aquilo que não foi dito ou contado. Terminam as possibilidades junto com a história, e portanto, todo fim é um assassinato. Um assassinato de tantos mundos possíveis.
Lembro-me claramente de quando, em um curto momento de tédio, eu olhei pra mesa vermelho-coca-cola da cantina da faculdade, e vi o fim lá. O fim encarnado na letra grega ômega, num pequeno e irrelevante ômega de lata, caído sabe-se lá de onde. Uma vez um pedaço útil de um objeto maior, e agora só uma mensagem corporificada do universo pra minha pessoa. Algo acabava. Sem me afetar: "algo está terminando. espero que não seja algo que eu goste". Eu não sabia, eram boas novas: estava acabando aquele mundo que eu detestava, aquele mundo-casulo de mais de um ano de idade. Eu era o corvo agourento dessa vez, porque tanto já tinha anunciado este fim, vislumbrado a eclosão em insights místicos, orado pela abertura das portas.
Comecei a adorar Ganesha porque ele é um deus dos começos, das entradas - e fechei meus olhos pra grande senhora Kali, guardiã dos becos sem saída dos términos. Uma coisa sempre vem com a outra. Por um ano enredei-me em teias e teias de palavras, porque aquela época tinha de acabar. Eu sentia que ia acordar uma manhã e perceber que tudo tinha se refeito, a matrix reprogramada no nível molecular. O ar entraria em meus pulmões, a água tocaria minha língua, meus poros agradeceriam a carícia do tato, todo o bater frenético de meu coração marcaria o ritmo como um metrônomo. Quando veio, eu nem percebi - porque a dama Kali é sutil e silenciosa em sua dança. (Mas um mago sempre sabe. Eu estava avisado por aquele profeta de lata da mesa da cantina).
A ficha só caiu, claro, quando meu diário começou a terminar. Aí eu senti de novo o medo da morte daquele personagem que tinha escrito. Oh, não, fins após longas histórias doem demais. Ainda não terminei o diário porque o medo paralisou. COMO eu termino? Que palavras poderiam cobrir todas as possibilidades ainda abertas em cinco páginas? Não há palavras, não há palavras. Mas agora não importa mais, porque já terminou - e qualquer palavra que eu coloque lá só serve em termos históricos, o que é algo até bastante nobre. I mourn. Eu acompanho o processo funeral com o interesse de um recêm-nascido, "quem será aquele que se foi? O que ele me deixou?" Sem entender muito bem que será minha vez bem em breve. Mas quando acaba, começa também. E os melhores dias são os da infância.
A metáfora de Perséfone indo e vindo do Hades cai como uma luva sobre os ciclos de destruição e recriação das nossas vidas - mas tenta esconder na metáfora do círculo as descontinuidades. Não é um inverno que vem e vai em um mundo estável e por-si - é tudo, todo o universo, todas as coisas, entrando em colapso e se reabrindo como flor, donde o último universo só sobrevive em inscrições enigmáticas sobre a matéria petalar. É bom ter o poder de escolher o que escrever.
E como eu posso terminar este post? Quando é que eu sei que já disse tudo que tinha a dizer? Se decido ficar por aqui, agoniza todo o não-dito - mas paradoxalmente, misteriosamente, obviamente, o término só veio quando eu aprendi a realizar. Quando troquei a efemeridade do pode-ser pela solidez do é. Eu tinha o poder, afinal, em todos os momentos, de terminar aquela era! A gente tem de ser nietzschiano, nesse caso. Pois eu sei que quando ceifo um mundo, e para colher o outro. Sem dó. Sem apego. O único amigo, o fim.

(e por mais denso e aprisionador que seja o real, o espaço, a matéria - tudo que ele faz é dar luz a mais possível, mais histórias, mais espírito).

Mr. Six às 14:38

Comments:



It's all about set & setting, honey.

Eu estou de volta aos negócios. Vendo, troco e empresto idéias bizarras. Interesso-me por qualquer coisa de exótico, misterioso ou selvagem. Se for enviar animais, assegure-se de que hajam buracos nas caixinhas. Até mais e obrigado pela consideração.

e-mail iagopontope no gmail

Fast Food Posts
Harlequinade

Back to business
Caos em Pílulas


Leio:
Sinnestesia
Poeta do Hediondo
Principia Discordia
Lila Icon

Arquivos



Visitas


This page is powe#FFB9B9 by Blogger. Isn't yours?